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02 março 2008

Construções realmente rápidas

Quando se pensa em qualquer tipo de construção no Brasil, o prazo mínimo para conclusão é contado em meses ou em anos, no caso de empreendimentos maiores. Lembro de um exemplo emblemático que ocorreu no final dos anos 90 onde morava, em João Pessoa-PB. Era uma das primeiras edições, se não a primeira, de um evento de moda na capital paraibana, que seria realizado no maior shopping da cidade, o Manaíra Shopping. Durante várias semanas percebi a construção de um grande galpão no estacionamento do shopping. Obra tradicional, com direito a alvenaria, estrutura metálica para coberta, e tudo que caracterizava uma construção permanente. Tal obra, apesar de estar sendo executada no estacionamento, não me chamou tanto a atenção pois o shopping sempre estava em expansão e a movimentação típica de canteiro de obras era comum e constante. Só depois de algumas semanas realmente o galpão me chamou a atenção pois estava sendo demolido! Então foi que eu soube que este foi construído para utilização da tal semana de moda. Na época fiquei de boca aberta, como se constrói algo daquela forma, uma estrutura daquelas para ser utilizada apenas por uma semana e ser completamente destruída depois? Creio que o pouco que pode ter sido reaproveitado foi o telhado.

Recentemente, no carnaval de 2008, em visita à capital paraibana, estive no 7º Salão do artesanato paraibano, onde foi montada, na praia do Cabo Branco, uma grande tenda de 8000m2 para o evento, toda em lona com estrutura em aço, perfeitamente adequada ao evento. Não acompanhei a montagem ou desmontagem da estrutura mas posso garantir que durou bem menos que o evento em si, ao contrário do exemplo anterior, e, talvez o mais importante, não gerou entulho e o material foi 100% reaproveitado para outras ocasiões.
Isso é apenas um exemplo de um mercado que existe mas não é de convívio comum para a maioria dos Engenheiros. As construções temporárias ou provisórias. São cada dia mais comums, tendo sua maior parcela de participação no Brasil em eventos como feiras, espetáculos musicais, entre outros. Mas, no resto do mundo também são necessárias em casos com desastras natuaris, guerras, ou outros males que pouco ou nada afetam a nossa terra.
Para alguns, essa necessidade de construções temporárias gerou idéias incríveis.
Uma empresa inglesa chamada Inflate cria diversas estruturas temporárias infláveis para eventos, além de outras necessidades como exploração científica e em casos de abrigos em áreas devastadas por desastres naturais. Também da Grã-Bretanha, os Engenheiros Peter Brewin e William Crawford, inventaram uma barraca inlável fabricada com um tecido impregnado de cimento que, após hidratada e inflada fica rígida como pedra e pode durar cerca de 10 anos. Cada unidade de 16m2 pesa 500 kg e é formada por uma bolha inflável coberta com a lona impregnada com cimento (que eles chamam de ConcretCanvas) e embalada em um saco plástico. Para hidratar o material são necessários 145 litros de água que são colocados diretamente no saco plástico que embala a barraca. Após meia-hora a embalagem é rasgada, a lona desdobrada e cheia com um compressor de ar. Em 12 horos o material já está rígido e pode ser utilizado. Já vem com portas e podem ser adicionadas novas seções, caso necessário. Não é nenhuma beldade da arquitetura mas parece atender ao que se propõe, apesar das críticas de alguns quanto ao peso e a necessidade de uma grande quantidade de água para hidratação, rara em situações de desastres.

A única empresa que conheço que desenvolve soluções para construções infláveis no Brasil é a Náutika que fabrica, além de suas linhas tradicionais de galpões estruturados (estrutura metálica coberta em lona), uma linha de galpões infláveis de grandes dimensões.

Tudo isso só ressalta que necessidades específicas exigem soluções também específicas e, com essas necessidades, novos mercados são criados e idéias desenvolvidas.

13 fevereiro 2007

Construção verdadeiramente industrializada

Hoje, conversando com uma grande amiga, a Engenheira Kycia Cordeiro, sobre os problemas enfrentados em uma das obras que acompanho, uma frase foi dita, mais uma vez, entre as infinitas das vezes que já a escutei. "O processo todo ainda é muito artesanal". Realmente, qualquer obra atual, seja no Nordeste ou em São Paulo, o mais poderoso centro econômico do país, uma coisa é certa: o produto acabado é um grande "artesanato". Algo comparado à uma grande escultura ou mesmo um pote de barro. Mesmo que existam dois similares, não existe um igual ao outro. Cada parte, cada pequeno pedaço só está ali porque foi manipulado por pessoas, a matéria-prima foi transformada, transportada e aplicada pelas mãos de diversos indivíduos, independentemente do grau de mecanização da obra. Isso também acontece, em parte, porque o produto final, a obra (principalmente a residencial), mesmo dividido em suas unidades (ou, no caso, apartamentos), são bens extremamente caros, inalcançáveis para grande parte da população. Sendo assim, quem os adquire se sente na obrigação de deixá-los com a sua cara. E isso se torna o maior pesadelo para a viabilidade das construções industrializadas. Vários já tentaram, entre eles Thomas Edison, inventor da lâmpada elétrica, que criou um sistema de formas metálicas para fabricação de casas, já que também era dono de fábricas de cimento. E Buckminste Fuller, o pai do domo geodésico e outro gênio, que também fracassou com sua casa pré-fabricada feita de alumínio a Dymaxion House.
Perguntas ficam no ar. Poderia ser diferente? É possível "industrializar" a natureza humana de querer se destacar, querer ser diferente? Estamos caminhando para isso. Existem pessoas no mundo estudando meios de suplantar os paradigmas da construção tradicional e artesanal para alcançar a construção industrializada e automatizada tentando, ainda assim, se adequar aos desejos de cada cliente final. E não estou falando simplesmente da utilização de materiais pouco tradicionais como gesso acartonado (que só é novo para nós Brasileiros) ou seus similares. São projetos bem mais radicais.



Um desses visionários é o Dr. Behrokh Khoshnevis da Universidade do Sudeste da Califórnia (USC) que criou um processo de construção baseado nos conceitos de CAD/CAM (Desenho Auxiliado por Computador/ Manufatura Auxiliada por Computador) e Prototipagem Rápida, chamado Contour Crafting, onde unidades habitacionais são construídas por robôs, sem a intervenção humana. E não há limites de formado ou dimensões para a execução da construção, as mais variadas formas, inclusive curvas, são possíveis. O vídeo acima demonstra o processo em escala reduzida, com um dos protótipos da máquina, que neste caso utiliza um material a base de gesso. Isso torna possível cirar uma "linha de produção" de unidades que, embora diferentes entre si, são executadas por apenas uma grande máquina, abandonando a figura humana e, consequentemente, a artesanalidade. A animação a seguir demonstra a proposta da máquina em tamanho real.



Pelas demonstrações percebe-se que tal processo é plausível e viável. Resta pensar o que vai ser dos operários de obra quando essa revolução se tornar real. Afinal robôs não descansam, não cobram hora extra, não ficam doentes, não faltam, não têm vícios... não reclamam. Mas também não têm família para criar. Espero que consigamos viabilizar uma solução para essa massa de pessoas que, muitas vezes, vêem na construção civil a única opção de trabalho pois, ainda hoje, as exigências de qualificação são mínimas, conseguindo agregar quem teve menos oportunidade na vida. E, se recuarmos um pouco na história, vemos que tal fato já ocorreu, de forma irreversível, em várias indústrias como a automobilística e a portuária. O que tornou os carros artesanais obras de arte à preços astronômicos e portos dependentes de estivadores, se não completamente extintos, inviáveis economicamente.